Ao longo dos séculos a Bíblia Sagrada tem sido o livro mais vendido, lido e
estudado da história. Pelos mais diversos motivos, pessoas de todos os lugares e
épocas se debruçam sobre as páginas do Santo Livro reconhecendo, de alguma
forma, o seu valor. No entanto, nem todos o percebem como os cristãos – ou seja,
como norma de fé e prática. Muitos tem as Escrituras apenas como uma fonte de
informações históricas ou uma maneira de compreender sociologicamente os
fenômenos da religiosidade cristã. Mas de uma forma ou de outra, a Bíblia ocupa
um papel central na compreensão da história da sociedade ocidental.
Para alguns, a Bíblia deve ser considerada apenas à partir de uma perspectiva
histórica. Como todo documento histórico, ela deve ser avaliada a uma certa
distância, descartando tudo o que não pode ser considerado fato histórico. Alem
disso, como documento ela está sujeita a comprovações externas como achados
arqueológicos e outros documentos que atestem a veracidade dos fatos nela
contidos. Essa abordagem constitui um extremo reducionismo, justamente por
desconsiderar eventos que naturalmente não podem ser “provados” historicamente.
No entanto essa compreensão tem o seu valor. É muito importante saber que os
fatos narrados nas Escrituras não são obra de ficção ou produto da imaginação
fértil de algum místico antigo, mas tem a essência de suas narrativas atestadas
pela história. Uma outra percepção das Escrituras, faz da Bíblia uma fonte de
embasamentos teológicos. É da Bíblia que se derivam os mais elementares
fundamentos teológicos nos quais se baseia o cristianismo. Foram através de
incontáveis esforços que os chamados Pais da Igreja elaboraram os mais profundos
tratados a respeito de assuntos complexos como a Trindade ou a deidade de
Cristo. Hoje em dia, quando assuntos como esses são ignorados nas igrejas
evangélicas pós-modernas como peças de museu desnecessárias para o dia a dia,
poucos reconhecem o inestimável valor que essas reflexões tem na consolidação da
fé. Não são muitos entre os cristãos, os que tem uma compreensão saudável e
precisa a respeito desses assuntos que custaram a vida e o sangue de tantos
mártires. Na tentativa de mascarar a própria mediocridade, muitos ignoram a
teologia, taxando-a de “letra que mata” (mais uma das muitas equivocadas
interpretações do texto Bíblico) sendo que na verdade, todos possuem uma
teologia. Boa ou ruim, todos tem uma teologia; mesmo os que dizem que não se
preocupam com isso. No entanto, a Bíblia não é só isso. Não se trata apenas de
um documento histórico, nem tão somente de uma fonte de tratados teológicos. A
Bíblia é um livro vivo. Tenho tido o prazer de ler o Antigo Testamento em uma
outra língua e esse exercício tem me dado a oportunidade de observá-la por um
novo angulo. Tenho visto a Bíblia de um ponto de vista pessoal. Não que esteja
ignorando o fato de que a Bíblia tenha sido escrita para um povo e época
específicos, isso é inegociável. No entanto, tenho procurado observar de que
forma a minha história se encaixa na história de Deus. Isso é fascinante. A
Bíblia é a história de Deus. É a narrativa de um Deus que busca o homem para se
relacionar com ele, de uma humanidade que se rebela constantemente contra o seu
Criador, e de um incessante desejo do Criador de redimir e restaurar a
humanidade. Sendo assim, as histórias narradas nas Escrituras se entrelaçam com
a jornada pessoal de cada um, na medida que entendemos que Deus está lidando ao
mesmo tempo com indivíduos e com toda a humanidade. As fantásticas sagas de
homens como Abraão, Moisés, Isaías e outros, são ao mesmo tempo demonstrações de
um Deus pessoal que interage com indivíduos em seus dilemas particulares, e de
um Deus que articula essas histórias individuais, tecendo uma trama comum que se
desenvolve em seu plano máximo de redenção. Em outras palavras, enquanto Deus
age na minha história, está agindo na História; ou olhando sob outra
perspectiva, enquanto age na História, está agindo também na minha história.
Portanto, vejo-me conectado a um plano maior. Quando Deus age em minha história,
guiando-me por seus caminhos, intervindo em minhas ambigüidades e moldando-me,
não o faz somente no plano da minha individualidade, pois a História é, em certo
sentido, a somatória de histórias individuais; Minha jornada, somada à jornada
de muito outros constrói a História em uma teia de relações infindável. Por
isso, quando leio as histórias dos Patriarcas, profetas, apóstolos e também dos
personagens não tão famosos das Escrituras, vejo-me em cada um deles. A história
de Abraão faz parte da minha história, me vejo em seus erros, participo das
promessas feitas a ele. Identifico-me com a sensação de impotência de Moisés,
com as angustias pessoais de Davi; alegro-me com a resoluta determinação de
Daniel, sinto o coração angustiado dos profetas. Enfim, é minha história, minha
vida. Assim, a Bíblia ganha cor, movimento, relevância. Deixa de ser apenas
fonte de argumentação histórica ou teológica para ser a história de Deus, que
não se encerrou ainda, mas recebe capítulos novos a cada manhã. O que há de mais
belo nisso tudo é que nessa história não somos apenas meros atores, marionetados
pelas mãos de um tirano soberano. Em determinadas ocasiões, o autor nos empresta
a pena da história, na expectativa de que possamos criar algo novo que expresse
o seu caráter e revele a sua vontade. Existe algo mais nobre e empolgante que
isso?
EVª
Ramiro Augusto da Silva